Coprofagia

Dr. Mauro Lantzman©

I. Introdução

É muito comum, na clínica veterinária, queixas relacionadas a cães que comem fezes. "Ver um cachorro com este comportamento me causa repugnância," colocam-se todos os infelizes proprietários quando vêem seu animal fazendo "aquilo". Em geral correm para o veterinário em desespero e pedem uma explicação, um tratamento pois não querem mais que seu cão faça isso.

II. Revisão bibliográfica

A. Classificação por tipo de fezes

Esta classificação foi feita segundo relato em literatura e em nossa experiência clinica de 10 anos:

a) Cães que comem fezes de animais ungulados. Comportamento comum de ser observado em carnívoros silvestres. Fezes, como por exemplo, de cavalos, são uma fonte de produtos de digestão microbiológica alem de fornecerem nutrientes aos cães.

b) Cães que comem fezes de gatos. Comportamento comum de causa indeterminada.

c) Cadelas recém paridas comem as fezes de seus filhotes. Ainda que seja um comportamento normal é mal interpretado pelo proprietário

d) Cães que comem as próprias fezes.

e) Cães que comem fezes de cães adultos. A razão para esse comportamento não está bem determinada.

f) Cães que comem fezes humanas.

g) Cães mantidos em canis públicos ou abrigos particulares parecem exibir mais freqüentemente este comportamento.

h) Casos mistos.

B. Causas

Varias são as hipóteses sugeridas como causas da coprofagia, no entanto não há respostas definitivas. Alguns autores sugerem que a razão para uma não definição das causa deste problema seja a variabilidade das situações que predispõem um animal a este comportamento e porque elas podem ser multifatoriais ou mistas.

1. Deficiência metabólica ou doença

a) Cães que comem fezes de outras espécies animais podem fazê-lo por que estas podem ser nutritivas, palatáveis e, por causarem poucos problemas, representarem um petisco apreciado pelo cão. Comer fezes pode não ser repugnante para o cão e pode representar uma fonte de alimento a mais ou ser apetitosa para o cão.

b) Super alimentação: sobrecarregar o sistema digestivo fornecendo alimentação e especialmente a base de ração uma única vez ao dia pode sobrecarregar o sistema digestivo e conseqüentemente ocorrer uma má digestão. Assim as fezes apresentaria um alto grau de produtos alimentares não digeridos. Mais tarde sentindo fome o cão se alimentaria destas fezes.

c) Baixos níveis protéicos ou alimentação insuficiente (fome).

d) Dietas ricas em carboidratos e fibras.

e) Deficiência de enzimas digestivas (enzimas pancreáticas). Nestes casos o fornecimento de enzimas digestivas é eficaz na superação deste comportamento.

f) Ocorrência de vermes e conseqüentemente carência nutricional.

g) Pancreatite crônica.

h) Síndrome de mal absorção.

i) Deficiência de tiamina experimentalmente induzida. Esta deficiência deve ser muito severa para provocar coprofagia.

2. Razões comportamentais

a) As cadelas recém paridas consomem as fezes dos filhotes. Dessa forma mantém o ninho limpo.

b) Ansiedade devido a conflito ambiental. Stresse ambiental pode contribuir com vários comportamentos redirecionados incluindo coprofagia.

c) Cães entediados que manipulam fezes como passatempo.

d) O cão pode ter sido condicionado a ingerir fezes para receber atenção do proprietário. O comportamento pode ter sido reforçado pela reação emocional do proprietário e que significou ganho de atenção.

As fezes parecem ter um caráter lúdico e ser gratificantes, auto recompensa e serem saborosas.

Punições excessivas relacionada a eliminações do cão. Cães podem comer fezes para evitar que os proprietários os punam.

A distribuição errônea do espaço de dormir, alimentar, defecar e urinar. Cães que não dispõem de espaço suficiente e são forçados a defecar em seu espaço de dormir acabam por ingerir suas fezes para manter o espaço limpo.

Ansiedade de separação. Cães deixados em casa sem companhia por um longo período de tempo acabam por exibir este comportamento.

Vício por razões comportamentais. Cães confinados ou presos são mais aptos a desenvolverem coprofagia do que aqueles que estão em companhia humana na maior parte do tempo. Parece que animais que saem a passeio, recebem maior atenção do dono, são menos isolados e ganham brinquedos podem ter este comportamento diminuído, aliviado.

3. Outras

Hereditárias - manifesta-se aproximadamente aos 6-8 meses. Em tais casos o comportamento é considerado normal, onde buscar nutrientes no lixo representou uma adaptação no processo de evolução da espécie

III. A opinião de alguns veterinários consultados na internet.

A internet tornou-se uma alternativa pratica e importante para a troca de informações. Por isso o tema da coprofagia foi lançado ali. As opiniões apresentadas não tinham preocupação com o rigor cientifico, no entanto representaram opiniões de profissionais que lidam com casos como este diariamente. O valor destas opiniões está em sugerir hipóteses que possam ser testadas.

Para James Serpell do Dep. of Clinical Studies da School of Veterinary Medicine da University of Pennsylvania é importante lembrar que a habilidade para viver revirando lixo a procura de alimento foi uma importante adaptação na evolução do cão domestico. Algumas raças exibem grande propensão para comer fezes e outros itens pouco palatáveis e uma experiência precoce durante o seu crescimento pode contribuir no desenvolvimento deste comportamento. Por exemplo, este problema comportamental é mais prevalente em cães a quem foi permitido perambular sem restrições. Além disso, fezes geralmente contem pequena quantidade de gorduras e proteínas não digeridas, o que torna possível que elas tenham algum valor nutritivo. Finalmente é normal que a fêmea de cães comam as fezes de seus filhotes e é possível que este comportamento torne-se habitual para algumas fêmeas.

De acordo com a experiência de Erik Wilsson do Swedish Dog Training Center este problema está relacionado a maus hábitos sendo que, fezes de cães alimentados com dietas hipercalóricas parecem ser menos atraentes. Segundo este veterinário "não adianta dar bronca, porque o cão acaba comendo quando o proprietário não está vendo. A solução seria a utilização de um colar elétrico. Sempre que o cão tentasse comer fezes receberia um choque e assim acabaria por evitá-las. Neste caso é interessante que o proprietário não emita comando nenhum e não esteja presente, para que o cão não associe a presença do dono com o choque." Para Randy Fulk do North Carolina Zoological Park, não existe uma causa definida. O comportamento talvez esteja associado ao fato dos cães serem evolutivamente adaptados a revirarem lixo em busca de nutrientes ou por causa de uma deficiência em sua dieta, ou por terem aprendido com outros cães, ou por que gostam do sabor. Ele acha que se tentássemos testar essas hipóteses encontraríamos diversas razoes isoladas ou associadas. Para ele, o importante é tentar descobrir quais são as condições que possibilitaram o desenvolvimento deste comportamento. Ele se pergunta "até que ponto é necessário saber quais são as causas de um comportamento para modificá-lo." É necessário saber as causas de um comportamento antes de decidir se vamos modificá-lo ?

Para Cheryl M E McCrindle, professora associada do Departamento de Produção Animal da faculdade de veterinária na África do Sul as causas podem ser divididas em

a) razões metabólicas ou doenças (parasitas, pancreatite, má-nutrição)

b) causas psicológicas - O cão está entediado e tem movimentação restringida (cães de apartamento). Reagem com coprofagia na presença do dono, para obter atenção.

c) causas hereditárias : fezes de eqüinos, ruminantes e humanas são comuns parte da dieta de cães selvagens. Na verdade as fezes são dieta bem balanceadas - em sociedades pastorais, onde as fezes são depositadas no chão, os cães estão em boas condições. Sua fonte principal de proteínas e vitaminas são as fezes humanas.

IV. Tratamentos propostos

Cães jovens podem comer fezes com o propósito de estabelecer uma flora bacteriana intestinal apropriada, no entanto, comer as fezes representa um comportamento não adaptativo uma vez que as fezes podem ser fontes de infestação de vermes, bactérias e vírus. Por outro lado este comportamento é rejeitado pelo proprietário e portanto deve ser tratado, ou modificado.

O Tratamento dos casos de coprofagia propostos em literatura não são uniformes. Uma vez que as causas não sejam bem definidas também tornam a escolha do tratamento uma matéria controvertida.

Segundo Hart & Hart (1985) os cães podem desenvolver aversão a fontes alimentares potenciais se estas provocarem náusea ou mal estar. No entanto, é muito difícil produzir aversão a alimentos de sabor conhecido. De acordo com estes autores a domesticação tornou os cães dificilmente condicionáveis a evitar alimentos.

Para Campbell cães devem ser alimentados 2 vezes ao dia com quantidades adequadas. Uma vez que não tenha sido constatada doença metabólica evita-se o desenvolvimento deste comportamento chamando, distraindo e brincando com o cão ao mesmo tempo que se emite um som agudo. As fezes são retiradas quando o cão se afastar do local e não estiver vendo. O cão será condicionado a se afastar do local em que evacuou tão logo acabe de evacuar. A aplicação do condicionamento respondente (o som agudo afastar-se das fezes) providencia uma correção geralmente permanente.

A coprofagia pode ser corrigida através da mudança para uma dieta de alta digestibilidade, alto nível de proteínas e gorduras e baixos níveis de carboidratos e fibras resultando modificação da textura e sabor e portanto na atração pelas fezes.

Para Mugford (in Serpell,J. The domestic dog its evolution, behaviour and interactions with people(1995) Cambridge: Cambridge Un. Press.a freqüência da alimentação pode ser aumentada até em 4 vezes ao dia. O conteúdo de fibras contido na dieta deve ser aumentado. Finalmente a coprofagia pode ser suprimida usando-se o condicionamento por aversão no qual cloreto de lítium 'é administrado imediatamente após o consumo de fezes. mas este tratamento só deve ser usado como ultimo recurso.

V. Bibliografia

1. Borchelt,P.L.,Voith,V.L. Diagnosis and tratment of separation-related behavior problems in dog. Vet. Clin. North Am Small Anim. Prac.(1982)(12):625-636

2. Campbell,W.E. Behavior problems in dogs.(1992) California: Am.Vet.Publ.,Inc.

3. Fox,M.W. Behaviour of wolves, dogs and related canids.(1971)Harper&row.

4. Hart,B.L.; Hart, L.A.. Canine and feline Behavioral Therapy. Philadelphia: Lea & Febiger, 1985.

5. Houpt,K. Ingestive behavior problems of dogs and cats. Vet. Clin. North America 1982; 12: 683-692

6. McKeown,D., et alii.Coprophagia: Food for Thought. Canadian Vet. Journal(1988) 29 ( 10):849-850

7. McKeown,D.B. et alii(1995) Seminar canine behavior. Academy Veterinary Medicine. Columbia,USA.

8. Read,D.H., Harrington,D. Experimentally induced thiamine deficiency in beagle dog:clinical observations. Am J. Vet. Res. 1981;42:984-991.

9. Serpell,J. The domestic dog its evolution, behaviour and interactions with people(1995) Cambridge: Cambridge Un. Press.

10. Taylor,A. & Luescher,A. Animal Behavior case of the month.Journal of American Vet. Med. Association(1996) 208 (7) 1026-1028

11. Voith,V.L., Borchelt,P.L. Separation anxiety in dogs. Comp. Educ. Pract Vet. (1985) (7) 42-56

Voltar a página inicial | Artigos | Livros